| Estranho,
malvisto. Ou não usual, excêntrico. O exquisito[2]:
magnífico, delicioso. Uma palavra que pode arrastar
toda a estrutura de tópicos e trazer as vivências
relacionadas com o termo presente em várias fases
da vida; e talvez de várias vidas. Palavra que
também faz o indivíduo sentir como se não
fizesse parte de um todo social, um contexto, uma história;
que marginaliza, diferencia, diminui.
Nesse
sentido, cada palavra do outro é uma pá
de terra jogada para trás; desenterra memórias
de vivências antigas, esquecidas, não verbalizadas
e, nesse sentido, inconscientes[3].
Por isso, essa palavra acaba sendo direcionada para aquela
pessoa que se faz única, com coragem de viver a
sua unicidade/personalidade ou intus, sua condição
humana que se configura como pura intimidade. Lidar com
o que temos de personalíssimo num mundo objetivo
é nosso grande desafio hoje em dia: como se mostrar
e ser reconhecido como pessoa única num mundo onde
os comportamentos são fabricados em série
como esse computador que estou manipulando agora?
Nesses
âmbitos de convivência, os relatos pessoais
podem nos maravilhar com imagens de lugares, coisas e
situações. Relatos que nos causam deleite,
encantamento, fazem rememorar situações
semelhantes, idéias de lugares parecidos, formas
puras de pessoalidade e sentimento de unicidade e integração,
como na descrição seguinte:
A
visão do jardim através de janelas novas,
de dentro do porão rebaixado na terra, fazendo
companhia às raízes. Na antiga senzala,
se olha para cima através de outras janelas para
observar pés e rodas na calçada das pessoas
e na calçada dos veículos. O carro de boi
está exposto no jardim; ferro, madeira e palha
trançada; ressoa de longe na memória o choro
do carro, parte do patrimônio imaterial de uma comunidade;
antes instrumento de labor, depois peça de desfile,
transforma-se em objeto de rememoração do
passado que já está aí.
Por
um lado, há a peleja de voltar-se para si, através
da reflexão sobre a vivência e da rememoração.
Mas a vida social nos chama sempre para estarmos fora
de nós: é a elevação ao ser
social, à comunidade, ao imediato. A universalidade
das ações se desdobra e particulariza nas
formas de um comportamento que corresponda a um agir econômico,
cultural, político e social. Essas particularidades
das ações são outras tantas mediações
através das quais a vida prática de cada
um se socializa na forma de hábitos. Do ponto de
vista da estrutura social, o indivíduo não
se apresenta como um átomo ou uma molécula
que se move livremente, arbitrariamente. Ao contrário,
uma cadeia complexa de mediações ordena
os movimentos do individuo num todo social. O que integra
a pessoa ao agir são os hábitos adquiridos;
na sociedade, são os costumes e normas de cada
uma das esferas citadas acima que regem a forma como a
pessoa vai realizar suas ações. Através
dessas mediações o indivíduo se integra
à sociedade.
Essa
integração pode ser entendida como a imersão
nas teias das relações, se tomarmos Foucault,
segundo o qual a ciência se apropria das práticas
do senso comum e realiza a sistematização
e o controle do conhecimento. Foucault pensa a importância
dos afetos na constituição das práticas,
uma vez que para ele, assim como para Marx, as relações
criam regras. O discurso ordena a prática e a prática
constitui o objeto de estudo. Portanto, para compreender
o objeto é preciso pensar a prática que
o engendrou.
Assim,
pode-se dizer que a pessoa social é aquela que
tem em si a particularidade, que é natural de cada
um, e a universalidade, que compete a todos. O ser social
é aquele sujeito intersubjetivo, que se comunica
com todos e mantém sua individualidade. Porém,
quando as formas de pessoalidade são suprimidas
não há subjetividade, não há
ética. É neste sentido que observamos a
utilização pejorativa do termo “esquisito”.
Tem-se
visto que a situação atual está marcada
por vergonhas morais e políticas que afetam a nossa
existência, a saber: a fome, a miséria, a
tortura, a violação da dignidade humana,
o crescente desemprego, a ameaça de destruição
da natureza pelo desequilíbrio ecológico.
Na era do sujeito sem referências morais, faz-se
necessária a consciência de cidadão
do mundo que possa responsabilizar-se pelos efeitos do
poder de maneira intersubjetiva, através de consenso,
e não sozinho. O desafio é fazer com que
essa reflexão se torne ampla. Temos aí que
saber combinar a propriedade com o convívio em
comum, por isso o encontro com o outro é importante,
com o devido cuidado para não perder a identidade,
mas estabelecer uma terceira, o nós, como um papel
do sujeito nas instituições, o elevar-se,
do individual ao universal; o compromisso do eu com os
outros “eus” numa comunhão de entidades.
Vamos
ao resplandecente. O fazer individual comprometido com
o todo, o pensamento do significado de si em vínculo
estreito com o ser do outro. O diluir-se, realizar-se
nesse mundo que aparece. O si que vai para/a/com o outro.
O ser feliz atrelado à felicidade do entorno –
o equilíbrio global.
Coroando
essa viagem sobre o ser esquisito, vem a pregação
do padre Fábio de Mello sobre os “santos
esquisitos” do nosso tempo[4],
com diferentes aparências e modos de ser; um bálsamo
para todos, padrões e minorias, que toca na teoria
política do “respeito à diferença”,
enquanto se compartimentalizam as manifestações
desta ou daquela categoria de pessoas no meio acadêmico.
O
debate sobre diferenças, identidades, políticas
e representação é trazido por Pierucci,
que divulga o direito de sermos pessoal e coletivamente
diferentes uns dos outros. Mas, ao mesmo tempo em que
um grupo afirma sua diferença e busca um reconhecimento
social e/ou político, aparecem dentro dele outras
diferenças que anteriormente eram invisíveis
e ilegítimas. Assim, a diferença é
socialmente produtiva, pois o mecanismo de luta pelos
direitos à diferença gesta em si o aparecimento
de uma multiplicidades dentro do grupo inicial.
Olhando
para tantos eventos consagrados à discussão
das particularidades desses grupos, para não cair
na “igualdade que exclua ou na diferença
que padronize”, chegamos a cogitar que talvez em
breve venham a ser criados fóruns de integração
multiétnico-comportamental para possibilitar a
volta da convivência, ou seja, a interação
entre os diferentes, por ora, esquisitos[5]...
BIBLIOGRAFIA
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Petrópolis:
Vozes, 1972 (Original: L’Archéologie du Savoir.
Paris, Gallimard, 1969)
___.
História da Sexualidade 2 – o uso dos prazeres.
Trad. Maria Thereza C. Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1984. 232 p.
___.
A ordem do discurso. Aula inaugural no College de France,
pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura F. A.
Sampaio. 6ª ed. São Paulo: Loyola, 2000.
LIMA
VAZ, Henrique C. de. Fenomenologia do ethos, in: H.C.
LIMA VAZ, Escritos de filosofia II: ética e cultura,
SP: Loyola, 1988, pp. 11-35.
PIERUCCI,
Antônio Flávio. Ciladas da diferença.
Ed. 34.
RUSS.
Jacqueline. Pensamento Ético Contemporâneo.
São Paulo: Paulus, 1999.
SEARLE,
John. Intencionalidade. São Paulo: Martins Fontes,
1995.
--------------------------------------------------------------------------------
[1]
Termo hispânico.
[2]
Termo hispânico.
[3]
Conforme John Searle, Intencionalidade.
[4]
Pregação do Pe. Fabio de Mello, scj, realizada
em 2/7/2006 em São José do Rio Preto/SP,
CD-ROM, fornecido pela Igreja Matriz de Promissão/SP.
[5]
O significado é você quem emite.
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