Quando
aprendermos que um dos objetivos da terapia filosófica
é ajudar o partilhante é sentir-se bem existencialmente
logo de inicio associamos “bem estar” a equilíbrio,
ações e discursos convergentes, e algumas
vezes podemos até nos lembrar de um pré-juízo
filosófico – mente sã em corpo são.
Um pouco mais tarde aprendemos que ajudar o partilhante
a sentir-se bem existencialmente, baseado nos conceitos
acima, é possível se essa for a sua busca.
Mais tarde ainda aprendemos que sentir-se “bem existencialmente”
pode ter nada de “bem” se levarmos em conta
os princípios de verdade a respeito do conceito de
“bem estar”. Bom, juntando tudo isso se pode
chegar à conclusão que “bem estar”
pode ser, para muitas pessoas, viver confortavelmente com
algo que incomoda muito.
Há
pessoas que procuram um filósofo clínico por
que algo as incomoda e muito. E incomoda tanto que nos procuram.
Abrem o livro de suas vidas, das lembranças mais
remotas até as mais atuais. Destrincham seus conceitos,
organizam seus pensamentos e traduzem suas metáforas.
Porém, não buscam exatamente o “bem
estar” desfazendo o nó que as incomoda. Por
vezes o incomodo é a base de sua estrutura de pensamento.
A pessoa pode não saber viver sem aquilo que a incomoda.
Se o incomodo for arrastado de onde está, só
um pouquinho que seja, a estrutura sofre abalos e pode até
desmoronar. Estas são estruturas onde as peças
parecem não se encaixar ou se encaixam tão
mal que podemos ter a impressão que ao menor soprar
de vento virão abaixo. Ledo engano, às vezes
nem furacões ou terremotos lhes fazem cócegas.
Estruturas como estas podem aparecer com um emaranhado em
que discurso e ação, busca e emoções
entre outros se engendram de maneira quase indecifrável.
O
que quero dizer é que “bem estar” também
é algo subjetivo e singular. O fato de um partilhante
narrar algo que o incomoda muito não implica no fato
de que ele queira se livrar dele, ou que este nó
deva ser desatado. As vezes ele só quer partilhar,
desabafar, contar algo para alguém que vá
ouvir sem ajuizar ou dar palpite. Isso para o partilhante
já pode ser o suficiente.
Nós,
filósofos clínicos, precisamos cuidar para
que essa “pseudo busca” não seja afrontada.
Para muitas pessoas sentir-se incomodada é estar
viva e ativa. Quando nos depararmos com discursos de busca
em choque com ações e emoções,
devemos atentar para sua real função na estrutura
de pensamento da pessoa. Afinal existem arrepios que não
são de frio, choros que não são de
tristeza, ataques de riso de nervoso e deliciosas picadinhas
de agulha... |