Porque
sairemos desta vida tão sofridos que todos os pecados
terão sido expiados. Porque somos brasileiros e
acreditamos que os brasileiros são bons, são
quase honestos, são escolhidos.
Iremos
para o céu porque quando morrermos descobriremos
que o inferno não existe de fato, só de
direito. Porque as almas, livres dos corpos, tornam-se
etéreas, leves, semelhantes às nuvens, e
nuvens têm a necessidade dos céus.
Iremos
para o céu por causa do clima ameno, dos costumes
serenos, da vida pacífica, da probabilidade das
arpas. Iremos para o céu porque mesmo em nossa
maior maldade somos ainda anjos. Mas não teremos
as asas por conta dos merecimentos que faltaram.
Iremos
para o céu e encontraremos nossos amigos, nossos
pequenos animais domésticos, nossos amores, e,
se procurarmos nas campinas verdejantes, nossos sonhos
novamente.
E
no céu não estaremos sós, não
teremos medo, não duvidaremos, e seremos saciados
de toda a saudade. Olharemos para a Terra com olhos amorosos
e úmidos. Procuraremos pelos que deixamos e neles
derramaremos bênçãos, perdão,
amor. Desta vez não pediremos compreensão
porque compreensão seremos.
Iremos
para o céu, meus amigos! E isso será logo,
será certo, mas não será calmo. Calmo
é o céu. O céu é azul, é
onde está Deus, seus ministros, Nossa Senhora.
E o primeiro deles que nos abrirá as portas, Pedro.
Procure-me
no céu. Não procure pelo meu nome, pois
no céu as gentes são achadas pelo coração.
Procure-me pelo meu coração. E quando me
encontrar terá encontrado você mesmo.
Minha
nossa!, mas que saudades eu tenho do céu!
...
ouvi isso, na ordem literal em que pude reproduzir, de
uma senhora a quem a medicina dos homens alcunha de “esquizofrênica”.
Fiquei comovido, admirado, agradecido. De vez em quando
gosto de lembrar como o céu é bonito. Fui
caminhando do meu consultório até o hotel
calado, sereno, carregando alguns livros debaixo do braço.
Um céu azul bem acima se espalhando pelos horizontes,
bem como ela falou. |