| Considerações
acerca da aplicação prática no âmbito
da filosofia é motivo de repugnância para muitos
catedráticos dessa área do conhecimento, sob
a alegação de que no ramo da filosofia não
existe a possibilidade do sentido prático, porque
ela é meramente teórica, portanto, sem nenhuma
vinculação com a busca de solução
de problemas, mas somente utilizada para questionar e buscar
a verdade. Nestes termos, teria o conhecimento filosófico
aplicabilidade de ordem prática? Poderia a filosofia
ter como fim, também, auxiliar na solução
dos problemas?
A
filosofia acadêmica, no que pese ser toda a base desse
conhecimento, não se pode furtar ao fato de existir
a possibilidade da aplicação desse conhecimento
nas busca de soluções para os problemas cotidianos,
a exemplo da dinâmica vivencial. Se o interesse primordial
da filosofia é com os problemas não resolvidos,
como afirma o professor Francisco Xavier Teles, pergunto,
não seria a utilização prática
do conhecimento filosófico que proporcionaria a oferta
de respostas adequadas, ou melhor, que possibilitaria a
solução dos problemas não resolvidos?
E o que é isso, senão utilização
prática da filosofia? Teles compreende que a filosofia
pode ir além do campo teórico e ser instrumento
que transcenda a simples transmissão de conhecimento,
porque para ele “a atividade filosófica mais
importante consiste no esforço sincero e na procura
inteligente de soluções para os problemas
que afligem a época em que vivemos”.
O
que fazia Sócrates com sua maiêutica na Ágora
em Atenas? Que ele filosofava todos sabemos, mas que também
existia um sentido prático para ajudar seus interlocutores,
nem todos graduados e entendidos da filosofia contemporânea
querem compreende ou admitir. Pois bem, a filosofia pode
sim servir de parâmetro de ajuda, ela pode sim auxiliar
e proporcionar a execução de atividades práticas,
que objetivam e facilitam o viver humano. O entendimento
da filosofia como descrição histórica
do processo de conhecimento ou como explicação
da realidade universal em seu conjunto, deve continuar,
entretanto, não se pode negar sua contribuição
aos aspectos práticos do viver concreto com suas
necessidades.
Ora,
se os efeitos da filosofia se fazem presentes nas pessoas
que passeiam pelo mundo do conhecimento, que estudam e admiram
o filosofar, que inexoravelmente se sentem com bem-estar
ao se deliciar com uma obra filosófica, é
porque nela encontrou elementos de satisfação
que superam a expectativa intelectual. Cioran já
dizia que “A filosofia serve de antídoto contra
a tristeza”, indício suficiente para demonstrar
os efeitos práticos desse conhecimento sobre o estado
subjetivo do ser. Da mesma forma Epicuro afirma que “Qualquer
argumentação filosófica que não
tenha como preocupação principal abordar terapeuticamente
o sofrimento humano é inútil”. Se, como
afirmei, os efeitos da filosofia se fazem notar sem maiores
problemas, porque então a academia se preocupa tanto
com a aplicação prática da filosofia,
quando verdadeiramente deveria estar focada para o grave
problema da falta de filosofia em seu meio, como frequentemente
acontece, salvo raras exceções?
A
Filosofia Clínica, criada no Brasil pelo professor
Lúcio Packter, não apenas responde a essa
necessidade de demonstração da aplicação
pratica da filosofia, como também abre espaços
para novas possibilidades de pensar filosofia enquanto doutrina,
voltada para locupletar as necessidades existenciais nessa
época de tantas turbulências. Além de
palavras, pensamentos, sistemas e tantas outras coisas,
precisamos de ações, de decisões, de
apoio, cooperação e compreensão dentre
outras inúmeras necessidades e, se a filosofia pode
ser utilizada para auxiliar e para fornecer um caminho,
porque não trilhar em sua linhas, que se fundamentam
em mais de vinte e cinco séculos de existência?
Durante
o IX encontro Nacional de Filosofia Clínica, realizado
em São Paulo no final do mês de abril, Lúcio
Packter afirmou que essa é uma caminhada difícil,
mas é um caminho sem volta, porque a Filosofia Clínica
possui uma linha de trabalho que respeita todas as outras
possibilidades, que a clínica filosófica não
é o caminho, porém, um caminho que objetiva
ajudar o outro em suas necessidades existenciais. Ele também
disse que “Depois da Filosofia Clínica, a filosofia
acadêmica não será mais a mesma”.
Essas afirmações apontam para uma nova realidade
filosófica que desponta no Brasil e chama a atenção
de vários países, sendo inclusive exportado
para outras nações do mundo ocidental. A meu
ver, essa é a primeira oportunidade em que a filosofia
brasileira é visualizada como algo diferenciado,
sem nenhum demérito para as correntes filosóficas
existentes. Por esse motivo Packter e a Filosofia Clínica
merece destaque e reconhecimento.
A
humildade com que Packter fala da Filosofia Clínica
não deveria assustar tanto aos filósofos,
que antes de repudiar e criticar a iniciativa dessa engenhosa
maneira de tratamento psicoterápico, deveriam ao
menos conhecer melhor seu funcionamento, através
de seus métodos integrados, que acima de tudo respeita
a singularidade e unicidade de cada história de vida.
Mas como costuma dizer Packter, “a crítica
é muito bem vinda e é natural que aconteça”.
Acho que tudo que é novo desperta atenção
e sendo novo e producente então, deve gerar certo
frenesi na malha intelectiva dos academiscistas de carteirinha.
Buscar a superação é a missão
de cada sujeito em seu exercício vivencial e todos
são muito bem vindos a Filosofia Clínica,
muito embora, em alguns casos, a compreensão não
aflore naturalmente, devido ao engessamento cerebral existente,
que necessariamente precisa ser quebrado para poder acessar
a dinâmica da clínica filosófica em
toda sua plasticidade.
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