Este
filme é, a meu ver, o retrato do que deveria ser,
na atualidade, o relacionamento de um homem e uma mulher,
no eterno imbróglio de se darem bem. Acredito que
a película veio para ajudar a desbancar Romeus
e Julietas, Cinderelas, Love Histories e Gatas Borralheiras
dos seus pedestais: perversidades impostas a várias
gerações no autoritarismo de amores exigentes
e inflexíveis, que, a guisa de ideais, arrebentaram
incontáveis relacionamentos e impulsionaram a indústria
dos antidepressivos, da literatura da tragédia
amorosa humana e dos divãs encharcados de lágrimas
– para não falar nos suicídios bem
reais.
Neste
filme não temos panos-de-fundo políticos
ou aristocráticos, como os Capulletos e Montechios
sentados nos seus tronos de comando para a prevalência
das suas vaidades. Nada de frases monolíticas,
estúpidas mesmo, como “amar é jamais
ter que pedir perdão”, ou cavalos puros-sangues
ao largo, ou serviçais (indubitáveis escravos)
patéticos e afetados dando a própria vida
pela felicidade dos patrõezinhos, ou de vestimentas
suntuosas de um mundo que só podíamos vislumbrar
pela janela da nossa dada mediocridade. O amor não
era para qualquer um, 'tava' pensando o quê?
No
BRILHO não há nem o príncipe encantado
nem a princesa perfeita. Depois de algum tempo de relacionamento
eles querem se ver livres um do outro (talvez num dejà-vu
das histórias ouvidas sobre a ‘perfeição’
do amor), mas aos poucos se rendem, percebem que o par
possível só pode ser o ser humano na sua
mais oscilante acepção: fraco, indeciso,
terno, bocó, único, forte, titubeante, bruto,
sublime, terno, convicto, genial, carente, ridículo,
blá, blá, etc., e sem o poder de dominar
a verdade pura. Ou seja, 'nóis' na fita, ou, we
on the tape.
O
BRILHO nos mostra cruamente o quanto é importante
o relacionamento entre pessoas que se olham nos olhos
desde o início e, interessadas, vislumbram a possibilidade
de perscrutar a nudez da outra alma – sem segundas
intenções e sem beirar à pieguice,
ou mesmo à inocência no seu estado mais manipulável.
Sim. E não é necessário ir conhecendo
o outro somente após estacionar os Audis-carruagem,
despir os Armanis-armaduras, lavar os Chanel e descalçar
os Carnellos, de cristal ou não. Ademais se houver
arestas, e há, elas são aparadas sem a anestesia
de músicas pasmacentas e sem clichês moralistas.
Tudo em ambientes reais onde não se vê assinaturas
de grifes ou monumentos famosos, que tentavam comprar
o quadro para referendar que o amor prefere lugares detalhadamente
estudados. Não. A beleza das cenas insinua-se nos
cabelos desgrenhados e mal-tingidos e em barbas por fazer,
dentro de um veículo amassado. Ali a única
arma de sedução é estar vivo.
O
BRILHO revela também o quanto é inútil
camuflar. A vida por si não propicia terreno para
o advento de ventosas-garras da mentira ou da manipulação
antinatural (mais cedo ou mais tarde elas se despregam
ou se desmancham. Caso perdurem, penso, já é
patológico). É inócuo tentar apagar
o que ficou gravado no coração. Não
adianta utilizar despojos e trejeitos de outrem para conquistar
um alguém já tocado pelo outrem (mesmo que
os aparelhos e utensílios sejam exatamente os originais
e o itinerário da 'conquista' milimetricamente
igual). Nesses casos o ente prevalece sobre o ser.
Por
algo que fica inexplicável, pois inexplicável
é, a aceitação mútua passa
ainda pelo crivo de ouvir um do outro o quanto se detesta
certas peculiaridades e atitudes, certas manias e idéias,
mas, ora, sem mais neuroses, eles querem ficar juntos.
O
BRILHO é um filme que finalmente nos mostra a possibilidade
de sermos aceitos e de podermos viver ao lado de outra
pessoa simplesmente porque algo em nós pede. Isso
é muito bom. É límpido; é
sincero e gerador de lembranças impossíveis
de se apagar. |